Para o mês de abril (e eu sei que esse post só vai sair bem depois), o livro que escolhemos no Clube de Leitura foi A Vegetariana da autora coreana Han Kang. E eu senti que essa leitura foi uma das mais diferentes que já fiz. Eu tive algumas experiências com literatura coreana, porém ainda assim eu acho que a escrita da Han Kang (nesse livro, pelo menos) é bastante peculiar. Diferente do último livro, eu não posso dizer que amei. Mas eu vou dizer sim que é um livro interessante.
Essa resenha pode conter spoilers, dependendo daquilo que você considerar um spoiler. Então a partir daqui eu não me responsabilizo rs
O livro conta a história da Yeong-hye, uma mulher comum que começa a ter sonhos estranhos, onde tudo é muito violento e de certa forma "carnívoro". A partir desses sonhos ela decide que não vai mais comer e nem cozinhar carne e essa decisão muda tudo, mexe com a família e escancara muitos conflitos e uma série de questões problemáticas que existem nessa família.
Essa história é contada em três partes, sob três pontos de vista distintos. A primeira parte, chamada "A Vegetariana" é contada sob o ponto de vista do marido da Yeong-hye. O Sr. Cheong é um cara sem graça que escolhe casar com a Yeong-hye por achá-la simples e sem grandes ambições ou necessidades. Se ela fosse uma boa esposa, tudo certo. Mas quando ela anuncia que não comerá mais carne e nem irá prepará-la para o marido, ele começa a vê-la como um problema e do tipo que ele não quer lidar, ele precisa "resolver", o que ele faz jogando o "problema" para a família dela. E essa decisão dele leva a Yeong-hye ao extremo, e como ele não quer lidar com essa situação, acaba pedindo o divórcio.
"Acabei me casando porque ela não tinha nenhum charme especial, e também por não ter notado defeitos muito gritantes. Uma personalidade dessas, sem frescor, brilhantismo ou refinamento, me deixava confortável."
A segunda parte, chamada "A mancha mongólica" é contada sob o ponto de vista do cunhado da Yeong-hye, um artista plástico que fica obcecado pela mancha mongólica que ela apresenta nas nádegas e, após o divórcio dela, decide propor que ela seja modelo para um trabalho artístico que ele quer realizar. Porém essa obsessão se transforma em desejo sexual. Todo o contexto faz com que Yeong-hye aceite as propostas do cunhado e até mesmo se encante pela arte que ele lhe apresenta. Mas no final tudo isso foi só mais um abuso contra a protagonista.
A última parte, chamada "Árvores em Chamas", traz o ponto de vista da irmã da protagonista, In-hye, que após se divorciar, continua sendo a única pessoa que permanece tentando cuidar da irmã. Nessa parte do livro, a protagonista já está internada em uma instituição para cuidados com pessoas com transtornos mentais e segue "piorando" cada vez mais. A irmã tenta convencer Yeong-hye a comer e reagir aos seus desejos que, para todos, são sem sentido. Esse cenário e o comportamento da protagonista fazem com que In-hye se pegue questionando sua própria vida e escolhas também.
"Para além desta casca que é seu corpo, em que mundo e espaço remotos estará a alma de Yeong-hye?"
Algumas coisas me chamaram muito a atenção nessa leitura. É nítido que a protagonista foi alguém que sofreu muitos abusos durante a vida e que até mesmo por conta disso, viveu de acordo com o que esperavam dela desde sempre. Quando ela toma uma decisão por si, isso parece ofender todo mundo, mas ninguém de fato se preocupou ou sequer tentou conversar com ela para entender o que estava acontecendo. Ela foi tão violentada durante a vida que até o direito de contar sua história lhe foi roubado. O fato de a história ser contada sob o ponto de vista de três pessoas diferentes e nenhuma ser a própria Yeong-hye escancara como é tratada a vida da mulher na sociedade na qual ela está inserida, como algo que pertence a outras pessoas e não a ela própria.
"O máximo que ia conseguir era machucar a si mesma. Seu corpo é a única coisa à qual você pode fazer mal. É a única coisa com a qual você pode fazer o que quiser. Mas nem isso te deixam fazer."
Apesar de, no meu entendimento, exista um transtorno mental, essa ruptura da Yeong-hye com o esperado, me pareceu uma catarse da personagem, quando ela sente que pode finalmente decidir por si, mesmo que isso traga consequências graves. Um outro ponto interessante é que ela não se denomina Vegetariana em nenhum momento. Ela só informa que não comerá mais carne.
O livro é cheio de metáforas e símbolos para falar de abuso, violência, sexualidade e transtornos mentais. Os sonhos da Yeong-hye são simbologias para muitos traumas e violência, inclusive. E ele retrata bem sociedades conservadoras onde a mulher precisa atender todas as expectativas e necessidades dos homens que a cercam (e de algumas mulheres também). Não é um livro sobre vegetarianismo, embora também fale disso.
Infelizmente o livro não deixa claro o desfecho da protagonista. Eu não gostei muito disso porque senti que ela merecia que fosse contado o que quer que tivesse acontecido com ela. É possível prever, mas não foi contado.
Fazendo um paralelo com o último livro do clube (Três) onde eu comentei que muita coisa ruim aconteceu, mas os protagonistas tinham pessoas boas em volta deles... Nesse livro a protagonista passa por um monte de coisas horríveis e a maioria das pessoas perto dela não é bom com ela.
A Vegetariana é um livro desconfortável. A cada página eu fui ficando mais incrédula e pensando como é que tá acontecendo uma merda dessa e quem tá em volta tá deixando? E eu sei que nem sempre a gente gosta desse tipo de desconforto. Não foi um livro que eu amei, mas é um ótimo livro pra quem quer entender muitas das dores que mulheres sofrem no dia a dia. Além do fato de o livro falar sobre transtornos mentais e os preconceitos que pessoas portadoras desses transtornos sofrem também.

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